Monday, 23 June 2008

Formas 2008 - Feira de Artes Performativas, Tavira

Eis o abstract que escrevi para apresentar na plataforma "pitching" do Formas 2008, realizado em Tavira nos dias 1 - 3 de Julho.

«Theatricality and Improvisation in Musical Performance
Musical performance is typically understood and studied as a mere sonic event. However, a live performance naturally adds a visual dimension that cannot be neglected by musicians. My conviction is that this dimension is even more crucial in the reception of new-made music - an aspect that I expect to study with more depth in the future. Now, to overcome the traditional visual impoverishment of the musical concert I started exploring the theatricality in my musical performances. Here, “theatricality” is used in the sense described by the French theatre producer Antonin Artaud (1896-1948): it means to make use of the whole body (and not just of the hands) to play an instrument and to employ adequate stage techniques like lighting, scenery or media to enhance the theatrical (musical) message. As a result, I mixture written musical pieces with musical (and non musical) improvisation, body/gesture movements, acting, vocal effects, technological devices, and so forth. So, as the title suggests, it is at the interface between musicianship and performance artistry that I intend to focus my future artistic and academic paths. To do this I chose the contemporary repertoire because it can more easily accommodate new perspectives around music-making and allow performers to stamp their personal ideas in a more creative manner. Additionally, new music is more acquiescent to be cross-fertilised with other elements, taken from other performing arts and technologies, and this represents an exciting field for those interested in experimenting with new paths for artistic and personal expression.»

Saturday, 9 February 2008

Crónica inglesa 10: Dias de Catarse

Sol.

Têm amanhecido uns dias solarengos por estas terras. É estranho ver este sol forte pela janela; não o associo a Londres mas ao Sul de Portugal. Lembra-me Lisboa, capital tão branca e luminosa. A nossa capital tem algo de único. É atlântica. É oceânica. Tem um horizonte infinito que logo mesuscita saudades. Que bons momentos passei por Lisboa.

Nas últimas semanas passei uns tempos turbulentos. Por isso preferi não escrever. Estive muito, muito sensível, até mesmo deprimida. Vivi uma tensão constante e nem sempre tive forças para eliminar os pensamentos mais obscurosda minha mente. Mas tudo isso já passou. Estes dias têm sido ‘catárticos’.

Fiz a minha «performance com música» e correu MUITO bem!! Quão natural foi para mim tocar e improvisar daquela maneira. Sofri semanas à espera deste momento, mas quando ele chegou, só me restou fazer uma coisa: brincar,divertir-me! Fiz a minha catarse em palco e sempre com muita, muita calma. É sempre bom sentir os olhares das pessoas atentas aos meus gestos/movimentosmais ínfimos; até mesmo á minha respiração. O público é a minha maior inspiração. A minha tutora ficou rendida Finalmente ela compreendeu a minha linguagem; a minha forma de fazer música. Sinto-me compreendida e acarinhada. Cheia de vontade de voar, voar, voar...

Graças também a ela também resolvi o meu único problema 'relacional' aqui naBrunel e que se prendia com um Professor meu. Cansei-me do seu espírito crítico e queixei-me à minha tutora; graças a ela fui recebida com sorrisos e com um olhar directo por ele. Apesar do meu espanto, que quase me petrificou, consegui reagir e pedir-lhe uma conversa.Falei. Falamos. Unicamente de aspectos profissionais, mas foi o suficientepara resolvermos os nossos mal-entendidos; agora estou muito mais aliviada e confiante. As reconciliações são poderosas. Elas mudam repentinamente a percepção que temos das pessoas: de pessoa horrível ele passou a ser pessoa sensível. Apenas se assustou comigo e interpretou o facto de eu nem sempre concordar consigo como algo ofensivo à sua pessoa, como arrogância e falta derespeito pelo seu trabalho. E não é nada disso. Eu só procuro a minha linguagem por caminhos diferentes. Bem, agora só quero estar bem com ele e sentir a sua confiança em mim. Portanto, vivam as reconciliações! Elas têm de acontecer mais vezes na Vida. Acho que é uma sorte quando podemos resolver assim os nossos equívocos com os outros. Esta foi a minha segunda catarse da semana.

E para terminar, uma terceira catarse, agora a nível pessoal. Aproveitei a onda e decidi cortar de vez com o meu Passado mais recente. Quero partir para o Presente sem amarras. Sinto-me outra vez livre para viver. Em suma, precisei de chorar um bocado para me renovar. Para renascer o so ldentro de mim, tal como acontece lá fora.

Sol.

Teresa

PS. Música do Philip Glass.

Saturday, 19 January 2008

Crónica inglesa 9: Pina Bausch


Consegui!!! Consegui comprar um bilhete para ver finalmente ao vivo a companhia da Pina Bausch, a Wuppertal Tanztheatre, em duas criações emblemáticas: «A Sagração da Primavera» e o «Café Muller». Após tantos anos de espera...

O trabalho da Pina Bausch é uma inspiração para mim.

Porque o que conta são as pessoas. Somos nós. As suas histórias são as nossas histórias. Vemos abraços, encontros, desencontros, alienação e a procura desesperada de um sentido no meio do caos. Pina fez-me tomar consciência de que toda a criação artística é uma metáfora da Vida, onde o passado se cruza com o presente. E talvez com o futuro...

Porque a sua matéria-prima são as emoções. São as nossas emoções. No ‘Café Muller’ há uma distância brutal entre todas as personagens; elas nunca se encontram… é-me muito perturbador. Duas delas estão absorvidas num abraço inerte. São ausentes, anestesiadas, talvez oníricas; há a mulher solitária. Nervosa, perdida em gestos indecisos. Ela procura e procura, mas não sabe o quê, onde nem porquê; e depois o 'waiter', a personagem mais real no meio de personagens isoladas no seu mundo. O rapaz que procura em vão compor o mundo através das cadeiras e dos abraços. Eu pergunto, no meio destas personagens onde estamos nós? Somos aqueles dois seres que se abraçam como que fugindo ao que os rodeia? Ou aquela mulher perturbada, perdida em si própria? Ou aquele ser que procura desesperadamente pôr ordem nas cadeiras do café? Não fomos todos já um pouco destas personagens? Sim, a distância entre elas é tremendamente perturbadora. E é nesta distância ou tensão que eu quero trabalhar.

Porque os seus bailarinos estão longe dos padrões de beleza e de performance física que nos são apresentados a todo o momento pela TV e media em geral. Os seus bailarinos são pessoas como nós. Os seus corpos também envelhecem, ganham rugas e marcas com o tempo. Pina B. sabe que um corpo sem marcas é um corpo sem histórias; é um corpo incapaz de uma expressão inteira. Por isso ela não trabalha com belezas plásticas e rígidas; ela trabalha com pessoas como nós. Com corpos que sentem como os nossos. E o sentir forte não é apanágio da juventude. É apanágio do ser humano;

Pina B. é uma pessoa que se atrapalha com as palavras. Não é através delas que melhor se exprime. É pelos gestos das suas mãos. É aí que tudo começa. Tudo o que nos é apresentado um dia como grande e sofisticado, começou por uma pequena pergunta ou por um movimento não pensado. Mais uma vez, a importância das coisas sem importância...

Por tudo isto e muito mais, ela me inspira.

Teresa

Tuesday, 27 November 2007

Crónica inglesa 8: International Symposium on Performance Science (ISPS 2007)


Passei uns dias loucos em Portugal, que me puseram cheia de borbulhas, aftas e rouca. Tudo devido ao stress. Sou mesmo um caso psicossomático interessante. Mas agora já estou bem. Simplesmente porque consegui DORMIR!! Dormir 12 horas foi o meu remédio. Viva o sono e as sestas!!

Quanto à conferência, confesso que foi demasiado técnica/científica para mim (acho que os músicos têm aversão a estas coisas..). Foi muito a 'british school', ou seja, a música é tratada de forma essencialmente quantitativa e psico/neurológica. Além disso, todos estudam a música num sentido quanto a mim muito restritivo e canónico. Ouvir estas perspectivas não me faz mal nenhum, claro, mas sei que não é por aí que quero fazer o meu caminho, seja ele qual for. Eu procuro uma nova forma de pensar e fazer música.... vi-me num prisma muito inovador face ao 'mainstream' e isso é ÓPTIMO, como é óbvio!!

Mas há outras coisas boas, nomeadamente as pessoas que conheci. Um Professor da UCLA, muito bem humorado; uns canadianos (um deles era também um dissidente da Bioquímica, tal como eu!); e uma espanhola, de quem fiquei especialmente amiga. Que pessoa maravilhosa!! Somos da mesma idade, vivemos fases parecidas na Vida e, curiosamente, temos 'temas' de investigação parecidos. Espero tê-la como minha amiga no futuro, tal como aconteceu com a Gerda, a minha amiga alemã.

Para terminar, eis-me toda sorridente junto ao poster mais bonito da conferência (o profissionalismo da Patrícia fez TODA a diferença. OBRIGAAAAAAAAADA!!!). Não sei como, mas estou sempre a sorrir nas fotos. Não consigo ver o cansaço atroz que sentia nesses momentos. Acho que isto de ser ás vezes meio 'actriz' ajuda-me...
Fiquem bem!

Teresa

Thursday, 22 November 2007

Paper for the ISPS

The link for my (first!) paper presented at "International Symposium on Performance Sciences", Casa da Música (Porto): http://www.performancescience.org/cache/fl0003578.pdf

If you want to look around and see what was happening there, please search on http://www.performancescience.org/ISPS/ISPS2007/Proceedings#22%20November%202007

Saturday, 3 November 2007

Crónica inglesa 7: A minha estreia no grupo «New Noise»

Esta semana vivi uma série de experiências novas (monóloguo teatral e música improvisada, em especial) e tudo parece 'dejá vu'; parece que sempre fiz isto na minha Vida. Acho que tal naturalidade vem do facto de ter acumulado experiências ao longo da vida que absorvi dentro de mim. Agora todo esse passado transparece nas minhas acções. É como se estivesse à espera de algo que as despertasse de dentro de mim, algo que me despertasse... todos os dias têm sido dias de descoberta de mim. Acho que é um princípio que quero manter pela Vida fora.

O mais marcante da semana foi a minha estreia como 'vocal improviser' nos New Noise. Foi, no mínimo, uma estreia muito interessante. Deixei a minha marca de forma muito forte no seio do grupo (como dizia César: vim, vi e venci). Foi algo inevitável e natural. Não consegui ser apenas cantora, no sentido melódico do termo. Tive de imitar vocalmente tudo o que imaginei, tudo aquilo que os sons me sugeriam a nível de imagem ou de apenas emoção. Eis algumas das personagens que fui:
  • fui uma criança, que só queria brincar e correr com o seu amiginho;
  • fui um homem bêbado, perdido, cuja dor da Vida é anestesiada pelo álcool (inspiração de Tom Waits, claro);
  • fui uma brasileira 'gostosona' a passear no calçadão de Copacabana;
  • fui uma africana, mulher lutadora, com vida difícil...mas sempre feliz e com um sorriso aberto e sincero na cara;
  • fui uma cantora de Jazz, sempre com uma voz quente, sexy e 'spicy', apesar das amarguras da Vida;
  • fui uma guitarra baixo a tocar algo funky, sempre imbuída de ritmos dançáveis e urbanos;
  • fui uma ninfa/druida/fada (?), cujo canto angélico paira sobre as pedras de Stonehenge (que ainda não visitei, ups!) num apelo místico a outro mundo;
  • fui apenas um sopro, um suspiro de ânsia e de paixão desejada, mas não consumada (inspiração da 'Mazurka Fogo', da sempre surpreendente Pina Bausch);
  • e fui o vento... fui a própria Natureza.


Enfim, foi incrível os sítios por onde a minha imaginação voou naquele momento. Fui uma surpresa para os meus colegas, mas fui-o sobretudo para mim. Eu aprendo tanto sobre mim e sobre Música 'fazendo-a'... Fui feliz nestes momentos. Esqueço tudo e todos; só conta a energia, a imaginação...

Ando excitada com a música improvisada, com o trabalho do John Zorn, com o 'nosso' Carlos Zíngaro (talvez faça um trabalho sobre ele..), porque estou a sentir na pele a energia e a liberdade que a improvisação dá. Parece que toca as nossas energias vitais. E depois, ela é tão inclusiva, abarca tudo e todos. É o espírito que procurava à tanto tempo... encontro-o agora, yes!!

Também ando a saber mais sobre a interacção da música com o movimento lendo entrevistas à 'performer artist' Meredith Monk, vendo coreografias da Pina Bausch, da Anne Teresa Keersmaker, da Trisha Brown, e outros. Estou em fase de recolha de estímulos. Depois tudo isto irá transparecer nos meus trabalhos, em especial nos ligados à parte improvisada e performativa. Já tenho algumas ideias...

E.....ando excitada com o meu regresso a Portugal. É tanta a minha ânsia!! Estou inquieta e ando farta da comida aqui. Quero comida portugueeeeeeeeesa!!!!!!! Acho que vou explodir quando chegar a Portugal (regresso dia 16).

Fico por aqui. Espero encontrar-vos bem e talvez nos reencontremos em breve!!

Teresa

Saturday, 27 October 2007

Crónica inglesa 6: Nada para vos contar...

Uma boa consequência dos meus últimos mails foi o facto de receber mensagens e mensagens, até dos mais 'adormecidos'. Algumas com observações críticas; outras profundamente agradecidas, por sentirem empatia e conforto com as minhas palavras; e a mais extraordinária foi saber que pus alguém a chorar. Mas que privilégio, meu Deus!! As palavras têm mesmo poder...

Reparei à dias que o meu diario está 'vazio' de escritas. Não tenho escrito nada. Apercebi-me então que vocês são o meu 'diário'. Pela primeira vez, partilho o meu 'livro' com alguém, que são vocês! (Confesso que me arrepia um bocado esta ideia...)

Não tenho nada de excitante para vos contar. A semana foi uma trapalhada:

  • Ontem fui acordada com o alarme de incêndio Não sei como não andei mal-disposta todo o dia. Claro que fui a última a sair do edifício. Não me apetecia ir de pijama para a rua e 'desconfiava' que era um ensaio. O costume, em hora de pânico eu sou clamíiiiiiissima!! Mais tarde recebo um aviso horrível, quase a tratar-me como criminosa, por não ter saído do quarto em menos de 1 minuto. Enfim...
  • Não tive performances esta semana, ou seja, não tive 'pedradas', que chatice!! Mas fui boa menina e estudei piano. Pedro já toco a tua 3ª peça e é tão bonita!!! Está cheia de tensão, de energia, de movimento; depois fica envolta em mistério e transe, terminando de uma forma 'apaziguadora'. Tanto, só em apenas duas páginas de música! Vou ter de ser ´várias pessoas' em pouco tempo. Isso é-me estimulante, claro;
  • Hoje não fiz o monóloguo previsto para 'acting' porque a linguagem era extraordinariamente difícil e incompreensível no sentido, mesmo para um inglês. Agora tenho outro, mais fácil, sobre uma rapariga que tem dúvidas se deve aceitar a proposta de casamento do seu noivo (casar ou não casar? Eis a questão). Enfim, vou 'viver' um enredo de telenovela mexicana;
  • Estou chateada porque não fui ao ensaio da música improvisada. Sim, estou cansada, mas talvez 'ressuscitasse'... que seca!
  • Amanhã tenho sessão sobre mais um tema novo para mim e não tive tempo para ler tudo. Nem o facto de ser sobre o 'Género e Sexualidade na Música' me fez ser 'responsável' nas leituras...
  • Estou mal do estômago e só penso no chã de hipericão do Gerês. Como é possível ainda não ter descoberto uma lojinha de chãs decente por aqui? Como alternativa, vou tomar chã de 'água quente' (ainda se a água fosse boa...);
  • A única coisa 'excitante' que me aconteceu é que fui a escolhida para apresentar um trabalho de grupo num seminario sobre 'effective reading'. Numa situação normal eu recusaria e morreria de pânico. Aqui eu pensei: olha, porque não?? Mais uma vez, custou-me dizer a primeira frase mas depois nem o inglês atrapalhava. Não fui a nona maravilha do mundo, mas também não fui nenhuma nódoa. Os colegas gostaram e isso basta-me. O melhor foi, sem dúvida, sentir uma confiança espontânea de pessoas que não conheço de lado nenhum em mim. É-me reconfortante. Mais uma vez, não tenho medo de me experimentar em novas situações. Aprendo tanto sobre mim...


Como vêm, não tenho nada para contar. Para a próxima talvez seja mais poética (ou polémica?). Beijinhos!

Teresa