Thursday, 14 January 2010
desabafo
ela põe-me em contacto com tudo aquilo que gosto e me desafia
assim estou num cantinho qualquer
mas não me sinto desligada dos acontecimentos
finalmente, começo a ter saudades da ilha (UK)
de tudo o que ali se passa a toda o momento
da diversidade, do radicalismo, da vanguarda, dos festivais mais estranhos,
das pessoas, dos artistas, dos livros
preciso desse ar
dessa liberdade
da pesquisa constante
o conforto não me chega
não consigo me acomodar a uma vida burguesa
repetir os modelos do passado
depender a minha visão do mundo daquilo que dá televisão
não consigo ver a vida por um buraquinho
por um horizonte estreito
por isso preciso de artistas radicais
de festivais alternativos
de conferências sobre temas bizarros
há algo no maldito, no radical, no visceral
que me intriga
me põe viva
me desafia
desafia o conforto da minha vida
tvv
Tuesday, 17 November 2009
teresa vila verde no FeministizARTE
direcção artística: vítor alves da silva
luz: margarida alves
vídeo: joana fernandes gomes
som: joão pedro carvalho
Evento performativo que cruza a música, o teatro, a performance, o vídeo e a instalação. Ao apresentar uma pianista que canta e fala, que conta histórias autobiográficas, que gosta de explorar inusitados espaços sonoros do seu instrumento e da sua voz, este projecto pretende desafiar convenções acerca do que é um concerto, uma pianista e uma mulher. música ou performance? eis a questão tem como base a improvisação, sendo esta pontuada com referências a outros universos musicais.
Evento que resulta da participação no workshop Autobiology, orientado pela dupla anglo-americana Curious (http://www.placelessness.com/) e parte integrante do National Review on Live Art (Glasgow, Fevereiro 2009), cujo objectivo foi explorar o visceral e os “gut feelings”, as conexões entre o corpo e a mente, biologia e autobiografia, visando a criação de material artístico “straight from the heart”.
Teresa no workshop autobiologyPara saber mais sobre esta e outras performances consulte a página:
http://www.myspace.com/teresavilaverde
Tuesday, 3 November 2009
Desabafos de um Médico
Muitos anos mais tarde, confrontei-me com a vivência do doente demente. E atroz o sofrimento e a perda de dignidade. Era um médico interno incauto e, a meu lado, estavam dois adolescentes. O pai, de idade avançada - mas, como sabiamente se diz em Psiquiatria Geriatrica, ainda "jovem" -, prostrado na cama. E aqueles dois olhares, a estrondarem esperança e desespero por todos os lados, seguiam-me por todo o lado. Auscultava aquela pessoa, que ardia de febre e frases soltas e desconexas. Os adolescentes, irmao e irma, vertiam discretas lágrimas. Diziam-me que não tinham mais ninguém com quem contar. Estavam, de facto, sós. A demencia de alguém é partilhada. Não estamos sós na doença.
Por momentos, olhava o corredor que dava em frente daquele quarto. Um outro doente deambulava pelo corredor, sem sentido definido. Como a vida da maioria das pessoas, talvez. Soltava gemidos, ininteligíveis. E a alma, que lutava por um pouco de dignidade, ia e vinha. O corpo daquele doente "trausente" movia-se de uma força inanimada, quase que por inércia. Olhava, incredulo e chocado, a manifestaçao violenta do que é a demencia. E, para muitos doentes, o estado de morto-vivo. Se-lo-a, um dia, para algum de nos?
Olhava de novo o doente, pai daqueles jovens. E pensava com toda a minha coléra e raiva se era "justo" uma vida humana se hipotecar daquela forma espectacular. O homem fora um dia um menino, com sonhos e projectos por concretizar. Era ignorante de todos os misterios insondaveis da vida humana que, mais tarde ou mais cedo, o peso e angustia do tempo que passa, fatalmente, nos traz. Poucas vezes nos atrevemos a revisitar a nossa existencia e a nos colocarmos as questoes fundamentais que gravitam em torno da aspiraçao mais universal: ser feliz. Alguma vez aquela pessoa imaginara terminar assim a sua vida? Senti-me, por momentos, e no usufruto do meu egoismo, o homem mais sortudo à face da terra. Quao melhores, talvez "bons", seriamos, de facto, se dessemos o real valor ao "taken for granted" dos nossos dias.
Muitas vezes, é a força fatal da demencia que sopra, com elegancia, os pilares ocos que nos constituem. O estado de "doença", na medida em que nos fragiliza, devolve-nos, muitas vezes, a verdadeira noçao do que é importante. Dissolve o narcissismo e a prepotencia subtil que a vida colectiva e de "copetiçao" nos imprime. Muitas vezes, sem que sequer tao pouco disso nos apercebamos. Por vezes, tarde demais. E ao olhar aquele homem, cadaver adiado que jamais voltaria a procriar, senti a minha mortalidade em todo o seu peso. Nos, médicos, temos um medo desgraçado da morte - quem nao tem? - e muitas vezes cometemos o "erro" estrondoso de conceber um acto médico isolado da carga afectiva, de "sentido", que pode significar uma mudança num rumo de vida. Ver o corpo de um doente demente putrificar-se, devorado por todas as possiveis e mais baixas co-morbilidades que se pode imaginar, é brutal. E horrivel chegar a casa e, enquanto o meu flatmate come um pessego, dizer-lhe, friamente, que uma doente morreu naquele mesmo dia depois de ter aspirado o caroço de um pessego. Adivinhem la? Sim, sofria de uma demencia e a Mae-Natureza, que felizmente nos fez mortais - aos bons e aos maus, aos corruptos e aos justos, aos egoistas e aos solidarios -, escolheu daquele modo ceifar a vida daquela mulher inocente.
Pergunto-me, por vezes, se realmente damos valor a estas coisas. Na anestesia fulminante que vivemos hoje, que tem o seu esplendor na solidao e na devassidao das conversas que gravitam nos ares de Nova Iorque e todas as grandes cidades, que tempo nos concedemos para renovar o "nosso" sentido? Ulisses, moldado por forças divinas, viajou longos anos pelos recessos do Mundo antigo à procura da sua "casa". Como bem diz Antonio Lobo Antunes, a moral da historia de Ulisses "foi ter chegado atrasado a casa".
Olhava o exterior daquele quarto triste. O vento soprava, suave, e libertava as folhas menos resistentes das arvores de Belle-Idée. Ao meu lado, aquela pessoa, que de todo desconhecia, estava ja "a caminho". E os dois adolescentes, cheios de ternura na sua expressao de perda, abraçavam-se.
Há dias fui ao dentista. Disse-me que tinha uma carie, mas que teria de escolher entre tratar isso ou fazer a limpeza dentaria que motivara a minha consulta. Pensando neste doente "demente" (e que, na realidade, podemos ser muito dementes na ausencia de demencia), com toda a frieza do Arctico, achei que aquele dentista nao tinha categoria para ser médico. E atroz que haja cada vez mais "profissionais da Medicina" e cada vez menos "profissionais na Medicina".
A coisa mais odiosa que nos pode suceder é a escolha voluntaria da "demencia" e da ignorancia de si.
Vítor Hugo
1 Nov 09
Sunday, 11 October 2009
Fuga de Luanda: a única escola de música Angolana
Tive a sorte de ver este documentário no passado Sábado na RTP2
vieram-me as lágrimas aos olhos
(que benção são estas lágrimas para mim... SINTO-me finalmente)
Ouvir um piano desafinadíssimo; ver umas instalações muito precárias mas cheias de vibração humana; ouvir falar de "Romantismo" num contexto africano; ouvir o Alfredo tocar a "sonata ao luar" de Beethoven... fico sem palavras.
Mas pior são os preconceitos que os alunos, em especial as mulheres, têm de enfrentar. "Você vai estudar o quê??"
Uma delas (Domingas, 42 anos, divorciada, 5 filhos, desempregada) vivia deprimida na sua condição de mãe e esposa (a única permitida às mulheres). Encontrou nesta escola a alegria e o sentido que lhe faltava. Ao ponto de ter de se divorciar porque o marido lhe batia e ameaçava de morte por ser estudante dessa coisa estranha.
Joana diz que o seu companheiro a obrigou a escolher entre o casamento e a escola de música. Escolheu continuar os seus estudos. Quer ser a primeira mulher - baterista angolana, apesar do professor ter desaparecido a meio do ano.
A directora da escola recebe constantemente ameaças de morte pelo facto de ser mulher num cargo de chefia. É muito difícil ser-se "chefiado" por alguém que usa saias. Ela decide ir-se embora e a escola fecha.
Alfredo, que escapou ao destino de ser soldado, luta por um espaço seu na música. Ele toca Beethoven com uma dedicação e abnegação louvável. Um amor gratutito a algo que acredita e sente como único caminho possível para a sua vida.
O documentário vai mais longe e filma estes estudantes em suas casas. Ver um dos filhos a tomar banho numa bacia pequena com a ajuda de um caneco, tocou-me fundo outra vez...
É incomparável esta situação com a nossa. Sim, estão muito "atrasados" dos índices ocidentais, quer musicais, sociais, quer escolares; mas aqui tal comparação nem se põe. Esta escola é MUITO mais do que qualquer índice europeu.
É preciso resistir ao apelo fácil de considerá-los "coitadinhos". Eles são é uma FORÇA DA NATUREZA! E por isso, uma inspiração para mim.
Todas as escolas de música Portuguesas deveriam ver este documentário. Porque é fundamental não esquecer a essência da música, o seu papel na vida das pessoas. Sejam elas profissionais, estudantes, meros diletantes, amadores, melómanos ou simplesmente pessoas. É primordial nunca deixar de sentir a compreensão, a alegria e o sentido que sentímos naturalmente em criança, mas que muitas vezes se esmaga face a uma competição desenfreada onde o tudo vale.
Nesta escola vi e senti a importância da Música na vida das pessoas. Não o esqueçamos!
Teresa
Para saber mais, consultar http://www.escapefromluanda.com/about.php
Monday, 14 September 2009
A velhinha de Chaves
senhora com os seus 80 anos
vestida de fato domingueiro azul
cabelos muito branquinhos e limpos
dentes escassos
ruguinhas no rosto e mãos
muito bonita, uma simplicidade sóbria
mas com olhos tristes
Ouço-a
bem, na realidade não a ouço
observo-a
a sua aflição comove-me mais do que tudo
aperto-lhe as mãos e lanço um sorriso
sem nunca largar os seus olhos dos meus
ela pergunta-me
«A menina conhece Chaves?»
«Não, mas meus pais vão a Trás-dos-Montes muitas vezes comprar azeite»
o rosto logo ilumina-se
alguém conhece a sua terra
«Pois, toda a gente vai a Espanha comprar azeite. Poucos são os que compram lá»
«Os meus pais sempre compraram azeite em Chaves e Mirandela. E tenho uma grande amiga de Chaves»
o rosto ilumina-se mais ainda
«Oh, ás tantas ainda a conheço. Como se chama?»
«Melissa, é professora de piano. Mas trabalha em Vila Real»
E a conversa foi por aí fora
com o rosto mais aliviado da tensão
encontrou alguém que entendia o seu viver e a sua terra
Não aguentei ver uma senhora naquela situação
alguém que podia ser minha avó
ou uma octagenária da minha aldeia
É-me revoltante
como podemos nós - sociedade e Estado - deixar as pessoas caírem nesta situação?
pessoas que já trataram dos seus pais, do marido e dos filhos, talvez emigrados agora
quem trata delas agora? (suspiro)
Perguntei-lhe o que precisava
pouco mais de nada
dei-lhe um pouco mais
desta vez é ela quem me aperta as mãos
«Por favor, venha a Chaves»
«Não creio que o possa fazer. Apenas quero que regresse a casa tranquila»
Olha-me bem dentro de mim
aperta de forma vigorosa as minhas mãos
(como se ela fosse jovem e eu uma velha)
«Se não fosse a menina que seria de mim agora?»
Regressei ao meu café com o coração transformado
estava....FELIZ!?
Mais tarde conto de forma breve o episódio a amigos
estes põem-me céptica e triste
enfim, contos do vigário praqui e pracolá
Fiquei a pensar
Seria a história desta senhora verdade?
Raios, porque lhe disse não iria a Chaves?!
Assim tiraria as dúvidas...
Depois penso
Eu é que olhei nos seus olhos
senti a força e calor das suas mãos
vi o seu rosto transformar-se quando falou da sua terra
Foi um sentir que me impediu de lhe dizer oc costume: Não!
E porque me vêm as lágrimas aos olhos agora?
Eu tenho de Acreditar nas pessoas!!
Mesmo que tal não passe de uma farsa, o que perdi?
nada, pouco mais de nada
E se fosse verdade?
Eu não poderia correr esse risco
não me perdoaria
Eu sei o quanto nos tornamos indiferentes ao sofrimento dos Outros
eu também me tornei assim
por norma nunca dou moedinhas nem esmolas
mas hoje não consegui ser assim
eu tenho de Acreditar nas pessoas
e acreditar que há pessoas boas e verdadeiras nos seus propósitos
e que há energias que se transmitem de pessoa para pessoa
Senão...
fico seca e amarga
Eu jamais quero ser assim!!
Teresa vv
Thursday, 20 August 2009
Nomadic.0910: Stories of Art and Science
Nomadic.0910 is a project of multiple events exploring art and science. It is anchored on the idea of circulating on a two-way road, exploring this fundamental, reciprocal question:
- How does science benefit when placed in artistic territories?
- How does art benefit when it rehearses itself as science?
Duas boas questões, quanto a mim. A relação entre arte e ciência tem sido longamente debatida mas nunca como agora este território se apresenta como um espaço de possibilidades infinitas em termos de criação de novos saberes. É sem dúvida aqui que o futuro se ensaia hoje.
Este esforço de convergência entre narrativas tidas como opostas é de louvar. Tal implica o reconhecimento de que não há um conhecimento totalizante ou um saber hegemónico seja ele científico, técnico, artístico ou de outra natureza qualquer. Nós precisamos de TUDO e de TODOS!
O mundo que vivemos é altamente complexo e volátil. TUDO muda a TODO o momento. É difícil termos as "verdades absolutas" dos outros tempos. Se tal deixa as pessoas inquietas e inseguras, também pode ser trampolim para novas aventuras e experiências na nossa vida. E porque não mudar e começar de novo? Este é o desafio excitante dos dias de hoje.
Por essência sou partidária de um saber que sai da sua torre de marfim e que dialoga com o Outro. Este diálogo nem sempre é fácil mas é possível e desejável. Parece-me que é nesta direcção que a humanidade tem de seguir o seu rumo: no sentido de ser capaz de comunicar com o Outro, independentemente deste ser seu semelhante ou seu dis-semelhante.
Tvv
Esta temática toca-me de forma muito particular. Toda a minha vida vivi na tensão de ter de escolher entre o científico e o artístico (entre outras dicotomias). Em vez de idolatrar os saberes "clássicos" defendi os saberes "híbridos", com toda a incompreensão que isso acarreta, pois são os únicos capazes de criar pontes entre o Eu e o diferente de mim. Sem dúvida a minha utopia é a da união dos opostos: desafia-me, fascina-me e explica-me.
Thursday, 6 August 2009
que procuro? (2)
Num dia só recebo duas notícias antagónicasTocam dois mundos que vivem em tensão dentro de mim Ser pragmática ou arriscar novamente?
Por onde vou seguir a minha respiração?
Uma propunha-me trabalho como professora de piano
(enfim, mais do mesmo...)
outra, uma mensagem da minha amiga Caroline Wilkins, compositora e performer
um misto de inglesa, francesa, australiana e alemã com uma energia contagiante
encontro breve mas surpreendentemente empático
desabafei na altura toda a minha frustação acerca da forma como a música era entendida naquele meio académico
recebi uma compreensão incondicional desta senhora que perdura até hoje!
incrível tendo em conta que ela não me conhecia de lado nenhum
ouviu-me e isso bastou-lhe
ela percebeu logo onde eu queria chegar
(nós mulheres funcionamos muito por instintos, certo?)
Nunca mais nos vimos
mas vamos trocando impressões
e aos poucos ela vai insuflando-me novamente com a ânsia de voltar ao mundo académico
de embrenhar-me a fundo noutra aventura: a da descoberta de algo novo!
isto é fascinante, magnético, põe-me histérica de energia
eu quero fazer aquelas coisas também, damn it!
Mas depois vem o lado pragmático
eu sei que ainda não encontrei as respostas que preciso: O Quê? Como? Com Quem? Onde?
então vou alimentando-me por conferências, contactos, livros e experiências
e, claro, trabalhando
Tvv
